toritojotori
x Para o meu amor.
Havia algo sagrado na forma como os meus olhos se recusavam a ceder. Sua presença ocupava o meu ar e eu soube. Como o sino das igrejas em dia de missa, isso impregnava minhas roupas, ecoava nos poros, cantarolava nos tímpanos. Como quem conhece o caminho até a pior das ignorantes, como segurar o ar em um altar de chamas e manter o coração no corpo, eu me ajoelhei sem fé, por violência, por adoração. Eu te amo.

𓍊 𓋼 𓍊 𓋼 𓍊 ❀ ༄ ☾

Me abri como terra onde existem raízes, meus joelhos, recém-feridos, manchados de sangue, pele trêmula, reluzindo em tons dourados. Deixei que seus passos cercassem os meus, que seu fôlego enredasse o ar e rezasse por mim, como o Cordeiro de Deus e o Filho da Perdição. Quando sua língua me tocou, era julho e primavera ao mesmo tempo. Estava chovendo no meu corpo e me curvei ao seu peso como relva sob o céu, porque, toda vez que sou devorada por você, não morro. É a única forma de permanecer viva.

𓍊 𓋼 𓍊 𓋼 𓍊 ❀ ༄ ☾

Não durmo bem faz um tempo. Seu nome fica preso onde eu não alcanço. Há uma hora da madrugada em que o vento entra pela janela e tudo em mim começa a subir. Não sei explicar. Silencioso, um tremor de raízes. A terra abrindo espaço na minha caixa torácica. Sinto tua falta como quem espera a chuva que viria em junho, ela não vem. Então eu estou chovendo de dentro para fora. Quase. Quase. Quase. E esse quase cresce até ocupar a minha garganta, o peito, a respiração inteira. Eu fecho os olhos como se, antes da manhã chegar, isso pudesse terminar na tua voz. Mas é a minha, cantarolando teu nome. Fico sozinha, as janelas e eu estremecendo. Não durmo. Há alguma coisa em mim que continua florescendo no escuro.

𓍊 𓋼 𓍊 𓋼 𓍊 ❀ ༄ ☾

Há mais de uma lua eu carrego, presa entre as costelas, um pequeno ferimento sangrento. E se hei de confessá-lo, que seja com minha voz sempre honesta e trêmula: é inevitável te amar não como Deus, mas como Jesus ama a criatura. Há em mim uma boneca de porcelana, estilhaçando-se se preciso, sabendo que o mais belo é justamente aquilo que pode se partir. Eu te amo e o meu amor se arrasta pelas costelas, sou tua como a charneca é da tempestade: inteira, selvagem e sangrando.

𓍊 𓋼 𓍊 𓋼 𓍊 ❀ ༄ ☾

Eis que me fiz carne, e a carne se fez amor, e o amor habitou entre nós. Desci do meu próprio pedestal, se é que ele verdadeiramente existiu; pois o que valeria um trono se dele eu não pudesse descer para estar contigo na ferida, e não somente na glória? Como o cordeiro que não retém para si nem osso, nem sangue, nem lã, mas se entrega inteiro sobre o altar, assim eu me entrego a ti. Não em parte, mas em totalidade, sabendo que na salvação há dor. E se hei de carregar uma cruz, que seja a de amar-te, entregando-me como alimento. Pois todo amor verdadeiro exige o seu sacrifício, e eu me ponho voluntariamente sobre a madeira, porque somente assim se morre um pouco para que o outro viva inteiro. O outro é você. Este é o meu evangelho: minha salvação em sentir sua dor, atravessá-la ao teu lado, até o fim.